Hoje existe uma grande discussão sobre a reposição hormonal, mais precisamente sobre a terapia com hormônios bioidênticos. De um lado, entusiastas desta nova prática e de outro, conservadores preocupados com suas possíveis consequências. Particularmente, estou dos dois lados.
Pra começar, reposição hormonal já existe a muito tempo e o uso de hormônios sintéticos é difuso e banalizado. Ou você consegue me apresentar uma pessoa que não conheça ninguém que toma pílula anticoncepcional? E os corticóides usados para doenças crônicas? São hormônios sintéticos. Estes dois são exemplos não de reposições, mas sim de sobrecargas de hormônios com objetivos diferentes dos efeitos fisiológicos de cada um. Isso deveria ser discutido e questionado, mas não é.
E os bioidênticos? Quem é contra diz que não é só porque um hormônio é idêntico ao produzido no corpo ele pode ser usado indiscriminadamente. E eles estão repletos de razão. Hoje existe uma cultura de que “é bom”, “é natural”, “pode usar”. E não é assim! Hormônios são substâncias potentes com receptores nos mais diversos órgãos do nosso corpo e vão muito além da pele, do útero ou dos músculos. Eles afetam praticamente todas as nossas funções e órgãos importantes como cérebro e coração. Atuam como drogas e trazem bem-estar, emagrecem, deixam as pessoas mais bonitas, mais fortes e mais jovens. O preço disso tudo? Pode ser muito caro. Usar hormônios pode aumentar o risco de câncer, doenças cardíacas, demência e até infertilidade permanente.
Então não devemos usar hormônios? Devemos crucificá-los e cassar o registro de médicos que os prescrevem? Não. Não é bem assim. Em várias situações os hormônios são necessários porque estão faltando, o corpo não consegue produzí-los por um motivo ou outro. É possível medir seus níveis e trazê-los a níveis fisiológicos (naturais) com uma reposição responsável. Isso já é feito a muito tempo, só que com sintéticos.
O mais importante, e menos praticado, é identificar o motivo pelo qual o corpo não está com níveis bons e tratá-lo primeiro. Hormônios não somem por um passe de mágica. Se há um gasto excessivo ou uma falta de produção, existe um motivo para isso. O mais comum é a baixa testosterona tanto em homens quanto em mulheres. Isso ocorre porque praticamente ninguém mantém a massa muscular em níveis ideais tanto pelo conceito errado de alimentação quanto pela falta ou erros na prática de exercícios. Corrigir estas deficiências é mais benéfico e também muito mais difícil e demorado que simplesmente suplementar a testosterona. Por isso muitas pessoas preferem o segundo caminho. E não quer dizer que este caminho esteja sempre errado, ele só é muito mais perigoso.
Para entender de desbalanço hormonal, é preciso primeiro entender de alimentação, exercício, sistema nervoso, graus de intoxicação de uma pessoa entre outros. Enfim, usar hormônios é uma prática muito delicada, complexa e realmente perigosa que precisa ser estudada e aplicada com muita cautela e responsabilidade. Sem esquecer que estas mesmas medidas deveriam ser consideradas ao inserirmos hormônios sintéticos em pessoas previamente saudáveis ou já muito doentes.